

Este é um lema que todos nós, enquanto profissionais de saúde oral, defendemos com fervor. Aplica-se à saúde oral, à saúde geral e a outras áreas da nossa vida. Quando sabemos à partida que uma série de comportamentos, hábitos e eventos terão um desfecho negativo ou danoso somos os primeiros a defender a adoção de comportamentos e hábitos positivos e saudáveis, que conduzam ao bem-estar, ao equilíbrio homeostático e à saúde. Ainda assim, quando o mesmo lema se aplica a nós próprios, com o objetivo de manter o nosso bem-estar individual e a prevenir estados de desequilíbrio que, por se prolongarem no tempo sem gestão adequada, podem conduzir a doença, então aí esquecemos o que defendemos zelosamente para os outros. E vivemos uma incongruência que traz muitas vezes desconforto interno: “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”.
O bem-estar e a saúde física, mental e emocional são requisitos fundamentais para uma prática clínica de alto desempenho e sucesso uma vez que potenciam a autogestão emocional pelo profissional, fomentam relações interpessoais positivas, equilibradas e de confiança e permitem o pleno uso das competências técnicas aquando da execução dos procedimentos clínicos.
Os profissionais de saúde oral estão sujeitos a uma série riscos ocupacionais associados às caraterísticas particulares desta área profissional, nomeadamente riscos físicos, químicos, biológicos, psicológicos e músculo-esqueléticos. A exposição prolongada a estes riscos pode conduzir a doenças ocupacionais, como o Burnout, que resulta da falta de gestão eficaz do stress ocupacional ao longo do tempo. Em 01/01/2022, a OMS decidiu classificar o Burnout como doença ocupacional na Nova Classificação de Doenças (CID-11). Segundo dados de 2016 da Associação Portuguesa da Saúde Ocupacional, entre 2011 e 2013, 21,6% dos profissionais de saúde portugueses apresentaram burnout moderado e 47,8% burnout moderado. Não tenho dúvidas que passados dois anos de pandemia, os números sejam superiores.
A consciencialização para esta temática deve iniciar-se nas instituições de ensino e passar depois para os locais de trabalho, quer sejam no setor público, quer no setor privado. Só dessa forma é possível atuar na prevenção. E prevenir as doenças associadas aos riscos ocupacionais inerentes à prática da Medicina Dentária começa com a tomada de consciência e informação sobre esses riscos e doenças. Num estudo de 2011, Prashant Babaji et al defendem a realização de workshops e formações para médicos dentistas para capacitá-los com estratégias preventivas e de gestão de stress (como por exemplo exercícios de respiração profunda, técnicas de relaxamento progressivo e eficaz de áreas do corpo, meditações, minsdet do stress), mas também sobre gestão clínica e de negócios, gestão do tempo, comunicação e competências de inteligência emocional.
Uma das minhas estratégias preferidas de regulação emocional, o Método Arsenal™, assenta exatamente num conjunto de práticas preventivas que contribuem para o aumento da resiliência e da tolerância ao stress. Arsenal é o acrónimo para sete práticas de longo prazo que determinam os nossos níveis de stress, que geram um estado emocional mais positivo e saudável, fazendo com que tenhamos menos necessidade de aplicar estratégias de regulação emocional de curta duração. E garantem que estejamos num estado emocional mais adequado para conseguirmos implementar essas estratégias interventivas quando as aplicarmos (pois serão sempre necessárias). As práticas são simples e parecem de senso comum. Mas o que é senso comum nem sempre é prática comum, por isso convém relembrar: awareness (consciência), rest (descanso), support (suporte social), exercise (exercício físico), nutrition (nutrição), attitude (atitude positiva) e learning (aprendizagem contínua).
A responsabilidade na prevenção é individual, de cada um de nós, a partir do momento em que se toma consciência para a existência dos riscos ocupacionais associados à nossa prática profissional. Já existe em Portugal formação para profissionais de saúde oral nesta temática. Tal como defendemos junto dos pacientes para a sua saúde oral, também no que diz respeito à nossa saúde individual e bem-estar “prevenir é o melhor remédio”!
