Compaixão na pratica

Manuela Rodrigues
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2/3/26

Se já me conheces, sabes que eu acredito numa Medicina Dentária baseada em compaixão e não em empatia. (Se ainda não me ouviste falar disto, lê aqui).

Quando pensas na palavra "compaixão", o que te vem à cabeça? Talvez a imagem da Madre Teresa, ou talvez penses em algum/a colega com tempo para ouvir tudo os que os pacientes têm para dizer ou uma assistente que está sempre pronta para ajudar um paciente.

Mas a compaixão é uma postura interior, não uma pose exterior, e dependendo das circunstâncias, uma ação compassiva pode parecer muito diferente destes exemplos. Por vezes, a compaixão parece sair de uma sala. Por vezes parece responsabilizar alguém, ou alguns sistemas. A manifestação exterior varia, mas a fonte da verdadeira compaixão é o seu próprio coração e a questão orientadora é:

"Como é que eu posso realmente ajudar esta pessoa?".

“A compaixão pode ser definida como a capacidade de estar atento à experiência dos outros, de desejar o melhor para os outros e de sentir o que realmente servirá os outros.” - Joan Halifax

Como é que isto se pode manifestar na prática?

Quando observamos atentamente as nossas experiências de compaixão, reparamos frequentemente em dois componentes que surgem simultaneamente.

Um deles é assustador. Chama-se "dor".

O mundo está repleto de sofrimento. Numa clínica dentária pode estar em todo o lado para onde olhamos: da dor de dentes literal, à ansiedade por causa do medo ou com dinheiro, ao stress dos atrasos, ao desencanto do profissional com a sua profissão.

E quando nos abrimos à dor nos nossos próprios corações, esta pode parecer bastante assustadora. No entanto, também é necessária. Observa o que sentes e sente-o. Chamar-lhe-ias medo, raiva, tristeza ou qualquer outra coisa? Encontra-a no teu corpo. Está quente ou frio? Faz com que os ombros fiquem tensos ou o estômago se contraia? Permite essa sensação. Deixa o teu coração amolecer perante o que sentes e permite que isso te preencha.

O segundo componente é chamado de "amor" e refere-se à resposta que surge naturalmente quando o fazemos.

Ao deixar o teu coração abrandar em relação aos envolvidos, mesmo que apenas por um momento, podes construir confiança no teu discernimento sobre o que é mais útil numa determinada situação. Talvez seja ouvir. Ou pedir ajuda. Ou um confronto furioso com as forças do mal (aka um paciente mal educado :). Ou ter a conversa difícil e dizer ao paciente o que ele precisa (e não o que ele quer).

Alguém me disse uma vez que a compaixão é a capacidade de conter a dor e o amor simultaneamente no coração, e nunca ouvi uma definição melhor para a Medicina Dentária. Não se trata de grandes gestos; trata-se do que é necessário.

Não estou a dizer que seja fácil. A compaixão exige uma coragem tremenda. Consegue-se, mas temos que permitir que o coração se abra à tristeza e à beleza deste mundo que é a Medicina Dentária e responder com bondade. E é por isto que com o tempo e a experiência, a compaixão tornou-se numa das principais razões pelas quais medito.

Espero que encontres momentos para ser compassivo/a esta semana.

Já sabes, estamos aqui — com presença, escuta e soluções.

Manuela Rodrigues
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2.3.26
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